Durante muito tempo, o adoecimento emocional no trabalho foi tratado como algo individual: “fragilidade”, “falta de resiliência”, “problema pessoal”.
Essa narrativa não se sustenta mais.
Os números de afastamentos por ansiedade, depressão, síndrome de burnout e transtornos psicossomáticos crescem de forma contínua em empresas e órgãos públicos. O que antes aparecia de forma pontual hoje se tornou um padrão institucional.
Estamos diante de uma epidemia silenciosa e o silêncio custa caro.
O adoecimento não começa no corpo. Começa no ambiente.
É um erro grave acreditar que o trabalhador adoece apenas por questões pessoais.
Na prática clínica, na escuta institucional e na análise dos contextos organizacionais, o que se observa é outra realidade:
Ambientes adoecidos produzem pessoas adoecidas.
Pressão constante, metas inalcançáveis, excesso de controle, comunicação truncada, ausência de escuta, insegurança psicológica, conflitos não resolvidos e relações hierárquicas baseadas no medo formam um terreno fértil para o colapso emocional.
O corpo apenas materializa aquilo que a mente já não consegue sustentar.
Quando a licença médica vira a única saída possível
Um fenômeno cada vez mais comum nas instituições é o afastamento recorrente dos mesmos colaboradores ou de setores inteiros.
Não porque essas pessoas “não querem trabalhar”, mas porque adoecer passa a ser a única forma legítima de escapar de um ambiente que oprime, silencia ou exaure.
A licença médica, nesses casos, deixa de ser apenas um recurso terapêutico e passa a cumprir uma função simbólica: proteger o indivíduo de um sistema que não está regulado emocionalmente.
Ignorar isso é tratar o sintoma e preservar a causa.
O custo invisível que poucos gestores enxergam
O adoecimento emocional não impacta apenas o indivíduo. Ele afeta diretamente:
- A produtividade
- O clima organizacional
- A qualidade do atendimento
- As relações de equipe
- A imagem institucional
- Os custos com afastamentos, substituições e retrabalho
Além disso, há um risco crescente jurídico e reputacional quando a saúde mental é negligenciada de forma sistemática.
Cuidar da saúde emocional hoje não é benefício, não é modismo e não é gentileza.
É gestão responsável.
Burnout não é fraqueza individual. É falha sistêmica.
Quando uma instituição apresenta altos índices de afastamento por exaustão emocional, o problema não está concentrado nas pessoas — está no modelo de funcionamento.
Burnout não surge do nada.
Ele é o resultado de:
- Demandas excessivas sem suporte adequado
- Falta de reconhecimento
- Ambiguidade de papéis
- Comunicação disfuncional
- Cultura de urgência permanente
Enquanto o sistema não muda, novos adoecimentos continuarão surgindo.
Saúde mental no trabalho exige ação e não discursos vazios
Campanhas pontuais, palestras motivacionais superficiais ou frases prontas não resolvem um problema estrutural.
O que as instituições precisam é:
- Consciência real sobre as causas do adoecimento
- Espaços de escuta qualificada
- Formação emocional de lideranças
- Intervenções preventivas e educativas
- Mudança de cultura, não maquiagem emocional
Falar de saúde mental é falar de como se trabalha, como se lidera e como se cuida das pessoas dentro do sistema.
O silêncio adoece. A consciência transforma.
A epidemia silenciosa do adoecimento emocional no trabalho não será resolvida enquanto continuarmos tratando o problema como algo individual, isolado ou invisível.
Instituições que desejam sustentabilidade, eficiência e humanidade precisam ter coragem de olhar para dentro e reconhecer:
Não existe resultado saudável em ambientes emocionalmente doentes.
Promover saúde mental no trabalho é um ato de responsabilidade institucional, ética e social.
E quanto mais cedo essa consciência chega, menor é o custo humano e financeiro dessa epidemia silenciosa.
Antonia Braz
Psicanalista Especialista em Saúde Emocional e Educação
Palestrante e Mentora em Saúde Mental Institucional